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GATO BRANCO
Por: Sérgio Augusto
Em: 14/10/2008
Lá vem aquele animalzinho branquelo, miando baixinho, se atirando aos meus pés e ronronando como os mistérios de uma tarde chuvosa e, ao mesmo tempo, ensolarada. Um felino muito carinhoso e doce, preguiçoso como nenhum outro e criador de uma língua que só ele falava: o miado-mudo (Sim, a preguiça era tanta que nem se ouvia voz naquele miar, só o movimento das mandíbulas que abriam e fechavam a boca. Hehehe).
Faz 24 horas que me comunicaram que esta cena nunca mais vai se repetir. Branco, o gato que morava na casa dos meus pais, partiu em direção à luz eterna de uma forma toda especial, como só ele poderia fazer: deitadão, com a boca aberta e os olhos serenos. Estava calmo quando se foi, semelhante à brisa que tanto apreciava ao se espreguiçar no batente da janela.
Bem, não adianta tentar driblar a morte quando ela chega. Vem por vezes de forma imprevista, sem ser convidada e vai logo dizendo que não espera nem um segundo. Mas no caso desse gato algo me marcou profundamente e me fez acreditar ainda mais que o homem não é o único animal capaz de amar e pensar. Minha mãe contou que há dois dias o Branco não comia nem bebia; ficava jogado no chão sem qualquer ânimo. Parecia que tinha desistido de viver.
Uma amiga da família, médica, examinou o gatinho e disse que não havia muito o que fazer, não haveria clínica que pudesse salvá-lo. Minha mãe ficou tão arrasada que nem me comunicou. Fiquei sabendo porque fui lá na casa dela e logo procurei o gato, como sempre fazia. Foi quando aconteceu algo que vou levar comigo para sempre.
O gato estava estirado no chão, respirava com dificuldade e não se mexia, não respondia aos sinais que lhe faziam. Passei a mão nele demoradamente; segurei sua patinha e senti que estava muito fria, sem vida. O gatinho fez um esforço supremo, creio que muito além das suas já poucas forças, tentou virar a cabeça mas não conseguiu. Me olhou pelo canto do olho e consegui escutar um suave e quase inaudível sussurro. Aquilo me paralisou; mas preferi não dizer nada. Nesses momentos, o silêncio e sua eloqüência discursam sem quaisquer meias palavras.
Saí, me despedi do gatinho, entrei no carro e voltei pra casa. Pouco depois meu pai veio me visitar e então me contou que, assim que saí, voltaram para ficar ao lado do gato e então viram que ele não respirava mais. O bichinho agüentou dois dias de fome, sede e dor. Só partiu depois que me viu, se despediu e se sentiu pronto para o momento fatal. Nesses 33 anos de vida, essa foi uma das maiores provas de amor que já tive. Muita gente não seria capaz de dizer “EU TE AMO” da forma tão bela como aquele morimbundo gato disse.
Lembrei do dia em que vi aquele gato pela primeira vez. Era uma noite chuvosa, há três anos, e, às proximidades de um cemitério, o encontrei encharcado, pequenininho, morrendo de frio e fome. Tornou-se o mais novo membro da família. Há três anos morava na casa dos meus pais. E aquele último quarto do casarão não mais será o mesmo sem aquela figura branquinha, preguiçosa e doce que me acostumei a vislumbrar, cada vez que ia até lá.
Prometi que não ficaria triste e não tem mesmo motivo. Branco está livre da dor e ontem à noite mesmo veio me visitar. A noite foi de lua cheia e estava divinamente estrelada. Tenho certeza que o Branco era uma daquelas estrelas e fez questão de mandar lá de cima um de seus barulhentos miados-mudos, que eu e minha Flor do Mar aprendemos a amar.
“O NUNCA É UM ESPAÇO LONGO DEMAIS. MESMO A MORTE, COM TODOS OS SEUS MISTÉRIOS, É NADA MAIS QUE UM INTERVALO”
Até um dia amiguinho Gato Branco!!!!!!!!!!!!
14/10/2008 Publicada por Boleiro da Sétima Arte
Por: Sérgio Augusto
Em: 14/10/2008
Lá vem aquele animalzinho branquelo, miando baixinho, se atirando aos meus pés e ronronando como os mistérios de uma tarde chuvosa e, ao mesmo tempo, ensolarada. Um felino muito carinhoso e doce, preguiçoso como nenhum outro e criador de uma língua que só ele falava: o miado-mudo (Sim, a preguiça era tanta que nem se ouvia voz naquele miar, só o movimento das mandíbulas que abriam e fechavam a boca. Hehehe).
Faz 24 horas que me comunicaram que esta cena nunca mais vai se repetir. Branco, o gato que morava na casa dos meus pais, partiu em direção à luz eterna de uma forma toda especial, como só ele poderia fazer: deitadão, com a boca aberta e os olhos serenos. Estava calmo quando se foi, semelhante à brisa que tanto apreciava ao se espreguiçar no batente da janela.
Bem, não adianta tentar driblar a morte quando ela chega. Vem por vezes de forma imprevista, sem ser convidada e vai logo dizendo que não espera nem um segundo. Mas no caso desse gato algo me marcou profundamente e me fez acreditar ainda mais que o homem não é o único animal capaz de amar e pensar. Minha mãe contou que há dois dias o Branco não comia nem bebia; ficava jogado no chão sem qualquer ânimo. Parecia que tinha desistido de viver.
Uma amiga da família, médica, examinou o gatinho e disse que não havia muito o que fazer, não haveria clínica que pudesse salvá-lo. Minha mãe ficou tão arrasada que nem me comunicou. Fiquei sabendo porque fui lá na casa dela e logo procurei o gato, como sempre fazia. Foi quando aconteceu algo que vou levar comigo para sempre.
O gato estava estirado no chão, respirava com dificuldade e não se mexia, não respondia aos sinais que lhe faziam. Passei a mão nele demoradamente; segurei sua patinha e senti que estava muito fria, sem vida. O gatinho fez um esforço supremo, creio que muito além das suas já poucas forças, tentou virar a cabeça mas não conseguiu. Me olhou pelo canto do olho e consegui escutar um suave e quase inaudível sussurro. Aquilo me paralisou; mas preferi não dizer nada. Nesses momentos, o silêncio e sua eloqüência discursam sem quaisquer meias palavras.
Saí, me despedi do gatinho, entrei no carro e voltei pra casa. Pouco depois meu pai veio me visitar e então me contou que, assim que saí, voltaram para ficar ao lado do gato e então viram que ele não respirava mais. O bichinho agüentou dois dias de fome, sede e dor. Só partiu depois que me viu, se despediu e se sentiu pronto para o momento fatal. Nesses 33 anos de vida, essa foi uma das maiores provas de amor que já tive. Muita gente não seria capaz de dizer “EU TE AMO” da forma tão bela como aquele morimbundo gato disse.
Lembrei do dia em que vi aquele gato pela primeira vez. Era uma noite chuvosa, há três anos, e, às proximidades de um cemitério, o encontrei encharcado, pequenininho, morrendo de frio e fome. Tornou-se o mais novo membro da família. Há três anos morava na casa dos meus pais. E aquele último quarto do casarão não mais será o mesmo sem aquela figura branquinha, preguiçosa e doce que me acostumei a vislumbrar, cada vez que ia até lá.
Prometi que não ficaria triste e não tem mesmo motivo. Branco está livre da dor e ontem à noite mesmo veio me visitar. A noite foi de lua cheia e estava divinamente estrelada. Tenho certeza que o Branco era uma daquelas estrelas e fez questão de mandar lá de cima um de seus barulhentos miados-mudos, que eu e minha Flor do Mar aprendemos a amar.
“O NUNCA É UM ESPAÇO LONGO DEMAIS. MESMO A MORTE, COM TODOS OS SEUS MISTÉRIOS, É NADA MAIS QUE UM INTERVALO”
Até um dia amiguinho Gato Branco!!!!!!!!!!!!
14/10/2008 Publicada por Boleiro da Sétima Arte
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Cada vez mais o grande Sérgio Augusto surpreende a todos! De jornalista, compositor, clone do Fernando Pessoa e agora cronista de mão cheia! O que posso dizer, falar, escrever? Ficarei como o gatinho "no quase inaudível sussurro"! Parabénssss, Sérgio!!! Continue sempre assim com essa alma pra lá de pessoana!
Abraços da fã-amiga-recifense,
Raphaela
Aquela noite foi linda e iluminada. Certamente ele esteve conosco ali, naquele momento. Nunca mais vou esquecer o dia em que conheci o Gato Branco e nem imaginava que ele deixaria uma eterna e terna lembrança em meu viver. Choramos juntos a ida dele e sempre lembraremos desse lindo animal com saudades. Com certeza, ele está nos céus e presente em nossos corações! Emocionante o texto, amigo. e claro, me fez lembrar de um cachorrinho que tive quando criança. E mais ou menos assim, ele se "despediu" de mim. Toda noite ele se enroscava no travesseiro atrás da minha nuca. Quando eu cansava, virava de lado e ele se aconchegava na dobra dos meus joelhos. Bom.. ele foi envenanado e ninguém na época se tocou nisso. Só fui perceber, quando na noite, ele foi ao travesseiro, mal se enroscou, foi para a dobra dos meus joelhos e pulou da cama. Achei estranho. Fui procurá-lo e ele estava lá na sala, morto. Pois é... uma cena de tantos e tantos anos que não me sai nem nunca sairá da cabeça. Hoje sem dores. Só saudades... dele e da criança que fui com ele. Abração. 'não adianta tentar driblar a morte quando ela chega. Vem por vezes de forma imprevista, sem ser convidada e vai logo dizendo que não espera nem um segundo.' Meu Deus do céu fiquei emocionada e sem palavras... acredito cegamente que os animais sabem amar melhor do que nós, feito foi a prova de amor do seu Branco. Bjooooooooooooo Nossa como me senti emocionada agora!!! Diferente de vc, meu dengo era preto como o céu da noite, há pouco mais de 2 meses perdi o meu bb de forma mt triste. Num dos passeios noturnos dele, alguém q não posso chamar de pessoa, por um ato de sei lá o q colocou veneno não sei pq razão e o meu inocente bichinho ingeriu. Deus foi tão bom comigo q não vi o meu bb daquele jeito tão cruel, ele não conseguiu chegar em casa e num quintal perto da minha casa ficou. Eu ainda sofro mt pq qdo lembro choro, ver as fotos e ter lido seu desabafo me emocionou mt! Te add. www.ixs.nafoto.net Beleza de texto, emocionante, há poucos meses minha filha perdeu um gato, quer dizer morreu, o Johny, e sem pedir autorização sua, o que me peço que me desculpe, mandei o texto para ela, só espero que ela não chore. htt´://odval.fotoblog.uol.com.br - obrigado por seu texto. Abraço e sucesso.
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